Como a valorização dos projetos está transformando a construção civil

Durante muitos anos, parte significativa do mercado da construção civil enxergou os projetos como uma etapa de custo a ser reduzido. Em muitos empreendimentos, a pressão por economias imediatas levou à simplificação excessiva do planejamento, à contratação fragmentada de disciplinas e, em alguns casos, à subvalorização do trabalho técnico especializado.

Entretanto, um movimento importante começa a ganhar força no setor. Estudos recentes mostram que a crescente digitalização da construção, impulsionada por ferramentas como BIM (Building Information Modeling), está elevando o grau de detalhamento dos projetos e valorizando a complexidade técnica necessária para entregar obras mais eficientes, sustentáveis e previsíveis.

A mudança faz todo sentido. À medida que os empreendimentos se tornam mais sofisticados, cresce também a necessidade de integração entre diversas disciplinas. Arquitetura, estruturas, instalações elétricas, hidráulicas, climatização, segurança contra incêndio, telecomunicações, eficiência energética, sustentabilidade, acústica, iluminação e acessibilidade já não podem mais ser tratadas de forma isolada.

A realidade atual exige projetos cada vez mais compatibilizados e desenvolvidos de maneira colaborativa. Quando essa integração ocorre ainda na fase de concepção, é possível identificar conflitos antes do início da obra, reduzir desperdícios, minimizar retrabalhos, controlar melhor os custos e aumentar significativamente a qualidade final da edificação.

Diversos estudos apontam que a utilização de tecnologias digitais e metodologias integradas pode gerar ganhos expressivos de produtividade e reduzir custos ao longo de todo o ciclo de vida do empreendimento. Não é apenas uma tendência tecnológica, trata-se de uma mudança estrutural na forma de projetar e construir. A construção digital permite testar virtualmente soluções, antecipar problemas e aumentar a previsibilidade dos resultados antes mesmo do início da execução física.

Neste contexto, uma disciplina ganha relevância especial e precisa ser incorporada de forma definitiva ao planejamento das edificações: a automação residencial e predial.

Historicamente tratada como um item complementar ou opcional, a automação passa a ocupar posição estratégica em um cenário marcado pela conectividade, eficiência operacional e experiência do usuário. Sistemas de controle de iluminação, climatização, proteção solar, monitoramento energético, segurança eletrônica, controle de acesso, gestão de ambientes e integração com plataformas digitais já fazem parte das expectativas de moradores, hóspedes, usuários corporativos e investidores.

A ausência de um projeto específico para essas tecnologias costuma gerar limitações técnicas, aumento de custos de implantação e dificuldades futuras de expansão. Por outro lado, quando a automação é considerada desde as etapas iniciais do empreendimento, torna-se possível definir infraestrutura adequada, prever integração entre sistemas e garantir maior flexibilidade tecnológica ao longo da vida útil da edificação.

Por mais eficientes e bem projetados que sejam cada um dos diversos sistemas de uma edificação, a sua integração através de sistemas de automação e conectividade vão expandir ainda mais a sua capacidade de atender de forma satisfatória o uso e manutenção futuros do empreendimento

O conceito de edifício inteligente não será apenas um diferencial para se transformar em requisito competitivo. Da mesma forma que ninguém imagina hoje um empreendimento sem projeto estrutural ou elétrico adequadamente desenvolvido, será cada vez mais difícil justificar a ausência de um planejamento consistente para as tecnologias digitais que irão operar o edifício.

O Brasil vive um momento importante de transformação na construção civil. A valorização dos projetos, o fortalecimento das especialidades técnicas e a incorporação de disciplinas emergentes, como automação residencial e predial, são passos fundamentais para elevar o padrão de qualidade das edificações, aumentar a produtividade do setor e preparar os empreendimentos para as demandas das próximas décadas.

Construir melhor começa muito antes da obra. Começa no projeto.
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Artigo de autoria do Eng. José Roberto Muratori, membro do Conselho Editorial da Revista Prédio Inteligente


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